CIDADES | Além da relação umblical
/ CASO RARO / GÊMEAS SIAMESAS UNIDAS PELA BACIA, E NASCIDAS EM NATAL HÁ DUAS SEMANAS, DEVERÃO SER SUBMETIDAS À CIRURGIA EM SÃO PAULO DAQUI A ALGUNS MESES
Primeiro, o anúncio duplamente comemorado da gravidez de gêmeos. Em seguida, a aterradora notícia de que os fetos mantinham uma relação além da umbilical: eram siameses. Saudáveis, mas siameses.
A dona de casa Eucivânia Cunha demorou para compreender do que se tratava. Coisa boa sabia que não era, dados os tons e ressalvas feitas pelo médico na primeira ultrassonografia.
Moradora do município de Alto do Rodrigues, a 340 quilômetros da capital, ela é mãe de Any Vitória e Ana Clara, que nasceram há cerca de 15 dias para lutar pela vida. As garotas foram submetidas ontem, em Natal, à primeira série de exames que deve culminar no procedimento cirúrgico para separá-las. Os especialistas que acompanham o caso não têm notícia de algo semelhante no Brasil e afirmam que a cirurgia será delicadíssima.
As gêmeas estão unidas pela bacia e compartilham do mesmo final da estrutura óssea da coluna, o chamado cóccix. Se visualmente é intrigante – são unidas da coxa à parte inferior das costas – por dentro é complexo. O compartilhamento vai além do cóccix e impôs a Ane Vitória e Ana Clara que também dividissem o mesmo ânus e, principalmente, o sistema nervoso central.
O caso intriga os especialistas. O neurocirurgião que acompanha o caso, Ângelo Silva, diz desconhecer no Brasil exemplo semelhante e que tenha, com sucesso, se submetido a procedimento cirúrgico. “É algo delicado. A cirurgia não deverá ter menos que 15 horas”, analisa, baseado em caso semelhante na Inglaterra. “Já houve uma intervenção cirúrgica que demorou até 23 horas”, compara.
A delicadeza demandada se justifica. Um erro milimétrico e Ane ou Ana podem terminar a cirurgia com sequelas para o resto da vida, como imobilidade total em uma das pernas. Durante a intervenção, a equipe de neurocirurgia deverá fazer escolhas complicadas, como determinar qual nervo pertence a quem. Vão precisar ainda construir um ânus para uma das garotas.
Até lá os problemas abundam. O primeiro deles é a falta de estrutura no Rio Grande do Norte para realizar esse tipo de procedimento. O neurocirurgião Ângelo Silva dá como certo que a cirurgia, que ele não soube estimar em gastos, deverá ser realizada em São Paulo.
Pesa ainda contra o caso a falta de equipe. “Reunir uma equipe como a necessária para essa cirurgia é difícil por falta de interesse dos profissionais. O ideal seria fazer a cirurgia em um ambiente universitário”, acrescenta o especialista, que antecipa serem necessários dois anestesistas, um neurocirurgião, neurocirurgião pediátrico e plástico.
O mais brando dos impedimentos remediado está. A cirurgia não pode ser feita agora porque seria entregar as crianças à morte. “Elas não sobreviveriam à perda de sangue”, analisa Ângelo Silva. Nesse tipo de intervenção, explicou, será preciso que Ane e Ana tenham pelo menos oito meses de vida e se alimentem bem, o que está acontecendo, garante a mãe das crianças.
Como as crianças, apesar de tudo, são saudáveis, a maior preocupação desde que foi anunciada xifopagia é o equilíbrio psíquico da mãe. “Temos trabalhado desde o princípio para preparar ela e a família para o que viria”, diz Silva. Para ele, os esforços têm logrado êxito nesse sentido.
FONTE http://novojornal.jor.br Tirado do blog deste jornal

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